terça-feira, 13 de abril de 2010

PROTESTATIO


Um grande amigo escreveu um belo poema onde declarou o seguinte: “eu não escrevo, eu transbordo”. O que ele quis dizer com isso não tentarei explicar, a final de contas, poesia não se explica. Mas como não sou poeta, explico porque “eu não escrevo, mas transbordo”. Não é segredo (pelo menos não mais) a crise que as instituições batistas têm enfrentado nos últimos anos e que se intensifica cada vez mais somando novos elementos deploráveis: ameaça de morte ao ex-presidente da CBC e sua família, roubos, articulações para difamação de quem tenta impor o mínimo de moral e ética, escapulidas extraconjugais, etc. Os casos se multiplicam. Essa situação é de indignar qualquer um. Mas acontece que, simplesmente dizer “indignação” não é mais suficiente. Porque de indignação em indignação estou transbordando. E este transbordamento tem que ir pra algum lugar e que lugar melhor que o papel? A bola da vez é a situação em que se encontra o Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Sobre esta situação transbordarei detidamente mais a frente.
Algum tempo venho me perguntando porquê uma instituição centenária como o STBSB, localizado em um endereço privilegiado, com um potencial de crescimento imenso, pouco avançou em cem anos. E, não bastasse sua estagnação, convive a pelo menos dez anos, entre avanços e retrocessos, com a sombra do fechamento. Olho para outras denominações históricas e me assusto com a gigantesca, infinita (me perdoem o exagero) superioridade de suas instituições de ensino. A Igreja Presbiteriana tem a Mackenzie, a Igreja Metodista tem a Umesp, a Igreja Católica tem as PUCs, todas são instituições de ensino referências no Brasil. Eu não saberia precisar exatamente o porquê estas instituições são o que são e o STBSB é o que é (são muitos os fatores). Mas o fato inegável é que este parece está percorrendo o caminho inverso daquelas.
Penso que um dos fatores, talvez o principal, que levou à atual situação, não somente do STBSB, mas também das demais instituições batistas, foi seu sistema organizacional. A “democracia Batista”, motivo de orgulho (não meu!), tem me deixado um pouco confuso. Cheguei a pensar que meu dever de casa tinha sido mal feito. Por isso, corri para os dicionários de política pra saber se fui desleixado. No dicionário revi que democracia “é o regime político no qual a soberania é exercida pelo povo, pertence ao conjunto de cidadãos”. Depois de ler vi que meu dever de casa não tinha sido mal feito, era disso que eu me lembrava. Mas, para não ser medíocre, perguntei à outros pensadores o que eles tinham a me dizer. Montesquieu me disse que temos democracia quando o povo detém o soberano poder. E Rousseau me disse que a democracia realiza a união da moral e da política, e é um estado de direito que exprime a vontade geral dos cidadãos que se afirmam como legisladores e sujeitos das leis. Por isso cheguei à conclusão de que a “democracia batista” é apenas teórica, na prática o regime é outro. Mas sobre isso falarei mais a frente.
O problema da democracia é que, por mais estabelecida que seja, tem seus ônus (como em qualquer outro regime). Talvez o maior ônus a se pagar é a descontinuidade a que está sujeito qualquer projeto. Na democracia é difícil fazer projetos a longo prazo. Pela alternância do poder, quem o assume geralmente se esquece dos projetos anteriores deixando-os pela metade, e investe em outros que julga serem os melhores para a maioria. E assim, pouco se faz e muito se contribui para o infeliz ciclo. Este problema não é privilégio dos Estados, mas toda e qualquer instituição que se diz democrática, dele participa. As denominações citadas acima não são democráticas, por isso não carregam o ônus que estamos fadados a carregar. A situação do STBSB não seria corolário da falta de consistência nos planejamentos? Não digo que os planejamentos não sejam bons, mas sim que o sistema não permite que eles tenham consistência.
Este seria um problema, e sério, a ser resolvido decorrente do próprio sistema. Mas acontece que em nosso caso o problema não é simplesmente esse. E agora retomo o problema apontado acima. Eu disse e repito que a “democracia batista” é apenas teórica. A meu ver na prática estamos (afinal de contas também sou batista!) distante do que vem a ser democracia. Aqui não há motivos pra desespero. Isso é algo natural. Analisemos primeiro a pratica, só depois a teoria.
Pergunto: que democracia é essa onde as eleições para a diretoria da CBB e demais decisões são realizadas e tomadas em algum cantão à revelia da esmagadora maioria dos batistas? (segundo dados da própria CBB somos cerca 1,3 milhões de batistas no Brasil, agora basta comparar com o número de participantes na última assembléia). Imagino que a resposta deva estar na ponta da língua: “mas todos são convidados a participarem e nada é feito às escondidas”. Concordo. Também deixo claro que não acuso ninguém pelo naufrágio do sistema, isso seria ingenuidade. Mas assim como as hienas a maioria da vezes não matam suas prezas, mas na espreita esperam elas tombarem para a devorarem, são alguns que se aproveitam da queda do sistema e devora a instituição o máximo que puderem, ou como carrapatos grudam na cadela sugando o máximo do sangue possível. Tenho outra pergunta: quantos dispõem de uma razoável quantia de dinheiro para bancar a própria viagem para que possa exercer seu direito de escolher o que acha melhor para a denominação? Alguém poderia retrucar: “mas isso não invalida a democracia”. Aqui, solicito mais uma vez ajuda de Rousseau. Ele diz que democracia é um “estado de direito”. E direito não é apenas possibilidade, mas realidade. O direito em si não é condicional, ele simplesmente é. Essas assembléias realizadas nos mais diferentes e longínquos lugares possibilitam a ação dos carrapatos que investem o máximo que podem (entendam como quiser) para se manterem no cangote da cadela. Não apenas vão, mas levam (levam outros, levam o poder e tudo mais que tiverem vontade).
Acima falei que a “democracia batista” na prática não tem nada de democracia. Vejamos agora a teoria. Para isso convoco o grande sábio, que neste caso também é um profeta, Aristóteles. Em sua teoria política, Aristóteles disse que toda a forma de governo tem sua sombra. Disse mais, cada forma de governo tende a essas sombras, em outras palavras, toda a forma de governo tende a deterioração. Assim a sombra, a deterioração a qual tende a democracia é a demagogia. Para que a democracia não se transforme em demagogia tem que haver uma instância coercitiva que a mantenha. No caso do Estado democrático, o poder das armas. Que instância coercitiva teria a “democracia batista”? Resposta: nenhuma. Não que ela já tenha tido e agora não tem mais, mas sim que ela nunca teve por isso a “democracia batista” se transformou em demagogia faz anos. Outro fator que contribui para a atual situação do Seminário é a independência das igrejas batistas. Calma, não desconheço o ideal de interdependência das igrejas batistas. Ideal? Sim, porque na prática é a independência que fala mais alto. Não desconsidero o plano cooperativo ao qual muitas igrejas são fidelíssimas. Mas algumas dessas igrejas (fidelíssimas) são as mesmas que abrem seminários em suas dependências e obrigam os seminaristas membros de suas igrejas a deixarem o STBSB para estudarem em seus seminarecos. Agora, pasmem! Muitos dos líderes destas igrejas são membros da diretoria da CBB. Que comprometimento com a causa Batista!
Tendo em mente este diagnóstico, qual a chance que o STBSB e todas as outras instituições de ensino batistas têm de se tornarem grandes instituições de ensino referências no Brasil a semelhanças das outras denominações históricas citadas acima? Sinceramente? Se a disposição continuar a mesma, nenhuma.
Agora falemos da situação do STBSB. A última notícia que nos chegou aos ouvidos pelo diretor Davidson Pereira de Freitas foi que o Seminário teria que demonstrar até o mês de Agosto a sua viabilidade, caso contrário será fechado. É isso mesmo, viabilidade! Não acreditei quando ouvi esta palavra. O seminário terá que zerar suas dívidas até Agosto e provar que tem condições de se manter. Na última terça-feira estive no STBSB e no exato momento em que eu lá estava, acontecia uma reunião para tratar da demissão de professores. Alguns funcionários, já foram demitidos, dentre eles a supervisora pedagógica dos cursos e a essa altura, alguns professores também. O curso de pedagogia já foi fechado. E a mais nova ordem é para que se pare o processo de reconhecimento do curso de Teologia (que absurdo! O diretor do STBSB poderá ser preso futuramente por dirigir um curso ilegal de Teologia), que já está autorizado. Os alunos reclamam e protestam o fato de não haver ajuda financeira da CBB, que segundo eles resolveria o problema do Seminário (não acredito nisso). Soma-se a tudo isso, um antigo plano, que pelo que me consta já foi iniciado (com restrições aos candidatos), de acabarem com o internato.
 Em momentos de crise como esse é comum ouvir discurso do tipo: “Deus não vai permitir que o STBSB, uma casa de profetas, seja fechado”. Diante de tais discursos (bem intencionados até) me pergunto: o que faz do STBSB melhor que as várias igrejas européias que foram fechadas e hoje em suas dependências funcionam bares? Não nos enganemos, o risco de fechamento é real. E se nada for mudado é isso que vai acontecer.
Não sou poeta, mas sou sonhador, e em meus devaneios contemplo apenas três possibilidades para o futuro do STBSB. Começo pelo mais provável (a realidade a está mostrando): fechamento. Se a ameaça do fechamento se efetivar seria algo praticamente irreversível, pois, uma vez estancada a rotatividade semestral de alunos, diante de tantas ofertas principalmente no Rio de Janeiro, levando em consideração a atual estrutura do STBSB, sua recuperação seria impossível.
A segunda possibilidade, essa menos provável (a má vontade a está mostrando), seria a CBB assumir sua responsabilidade de mãe e trazer seu filho para debaixo de sua saia. Assumindo todos os encargos daquele que deveria ser a “menina de seus olhos”. A forma mais eficaz da CBB atuar em auxílio às igrejas para que estas “possam realizar a sua missão” (palavras do executivo)[*] não seria justamente investindo na base? Em uma liderança forte com uma formação segura?
A terceira possibilidade, essa mais improvável ainda, mas que resolveria o problema e colocaria o STBSB pra cima, seria um grande investimento para criação de novos cursos auto-sustentáveis e que sustentariam o curso de Teologia no STBSB. Dizer que a quitação das dívidas do STBSB, seja por meio de um empréstimo de dois milhões por parte da CBB ou pela venda de parte de seu patrimônio, solucionará o problema do Seminário é querer curar apendicite com compressa na testa. O pagamento da dívida é apenas uma morfina pra quem precisa urgentemente de um transplante de fígado. A realidade é que muitas igrejas batistas têm aberto seminários em suas dependências (isso sem contar os outros seminários de outras denominações) e muitos alunos batistas estão se matriculando nestes cursos. Isso é um movimento irreversível, ainda mais se estes outros cursos já são reconhecidos pelo MEC. Por conta disso, a procura pelo STBSB tem diminuído drasticamente. E com a baixa procura, temos pouco dinheiro e com o pouco dinheiro temos a impossibilidade de auto-sustentar essa grande estrutura. O grande trunfo do STBSB, além da ótima qualidade do ensino teológico, é o internato que oferece a possibilidade para alunos dos mais diferentes pontos do Brasil e do Mundo virem estudar. Só que este trunfo, ao que tudo indica, já está com os dias contados. Assim, os alunos que vêm de fora não virão mais e os alunos daqui do Rio de Janeiro, que têm uma variedade de seminários para escolherem, optarão pelos que oferecem menor custo e tenham o reconhecimento do MEC. Resumindo: o Seminário não tem e não terá, cada vez mais, condições de auto-sustento. Mesmo que se quite todas as dívidas do STBSB isso só seria uma sobrevida e a ameaça de fechamento novamente apareceria. Uma grande universidade, esse foi o sonho de nossos fundadores. Que vendam parte do patrimônio, que emprestem dinheiro da CBB. Mas se este dinheiro não for investido em novos cursos (quer jeito melhor de ser sal nesta sociedade?), escoará pelo ralo. E daqui a cinco ou dez anos, lá estaremos nós de novo debatendo o futuro do STBSB.
Chega de devaneios. Mesmo porque dizem que os “sonhos são como horizontes, se distanciam à medida que nos aproximamos”. Agora com os pés no chão, olhemos pra trás. A ditadura militar que governou este país fez algo semelhante: atacou diretamente a educação retirando a Filosofia dos currículos para que os críticos desaparecessem e surgisse no lugar um mar de súditos. Resultado? Um monte de súditos emburrecidos. Será que eles (nossos líderes) não percebem que com o fechamento do Seminário do Sul (acabando com a boa Teologia) as igrejas serão as mais prejudicadas?! Com um líder mal formado só podemos esperar liderandos alienados. Com líderes fracos teremos igrejas fracas. Ou será que a pergunta a ser feita deve ser: qual o real interesse no fechamento do Seminário?
            Volto à questão sobre a condição imposta pela CBB sobre a viabilidade do STBSB. Em minha opinião questionar sobre a viabilidade do Seminário é perguntar sobre a importância do Seminário. Quem sabe da Importância do Seminário e da educação teológica não pergunta pela sua viabilidade. Mesmo sabendo da importância do Seminário tanto para as igrejas quanto para a sociedade brasileira como um todo, respondo a esta questão sobre sua importância:
O seminário não tem a menor importância para os inquisidores que estão imbuídos da decisão de mandar o Seminário do Sul para a fogueira ou não. Mas com certeza tem uma VITAL importância para o crente simples que aos domingos vai à Igreja e é obrigado a emprestar seus ouvidos aos líderes institucionais, que apesar de terem nomes de Sábios, estranhamente insistem em resolver os problemas ambientais do mundo colocando a culpa em Adão que arrancou uma folha de figueira para cobrir sua nudez. Ou que (ainda os líderes com nomes de Sábios), na ânsia de fazerem nascer a fé no coração do povo, aplicam suas maiêuticas fazendo nascer no coração do crente nada mais que o riso ao informa-lhe que os cientistas descobriram um tipo de minério presente nas rochas palestinas que tem a capacidade de reter as vozes e sons do passado e, através disso seria possível escutar a voz até de Jesus! Calma! A graça ainda não chegou. A maiêutica do riso aconteceu quando o grande Sábio completou sua brilhante exposição sapiencial: “A palavra de Deus está se cumprindo irmãos! Pois ela diz que ‘as pedras clamarão’!”.
Se a perspectiva é a dos Sábios inquisidores, realmente o Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil não tem a mínima importância e mandar o Seminário para fogueira não faz diferença alguma. Mas se a perspectiva é a dos fiéis crentes que são obrigados a beberem destas águas poluídas de esgoto, aí sim, o Seminário tem grande importância e o seu fim fará toda a diferença.

Luciano Pereira Prestes